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Apesar de contar com um número menor de participantes – 22 mil, contra um pico de mais de 30 mil em 2013 – a convenção PDAC 2016 mostrou um otimismo moderado, mesmo diante dos recentes desafios da indústria de mineração mundial, que enfrenta um momento ruim em termos de preços e demanda de algumas commodities minerais. Ao contrário de 2015, quando o pessimismo predominou, este ano foi possível identificar um sentimento positivo por parte dos principais players da indústria.

Durante os dias 6 e 9 de março, acorreram para a cidade de Toronto, na província de Ontário, Canadá, provenientes de mais de 100 países, milhares de investidores, analistas, executivos de mineração, geólogos, representantes de governos e estudantes para participar daquele que é o maior evento de exploração e mineração no mundo. 

De acordo com Rod Thomas, presidente da PDAC (Prospectors and Developers Association of Canada), “a exploração mineral e a indústria de mineração têm enfrentado uma série de desafios econômicos nos últimos anos, mas o setor continua a demonstrar resiliência e o dinheiro voltou a fluir para a indústria, há tendências de mercado favoráveis e um movimento em direção a soluções mais sustentáveis para as atividades de mineração. Vimos, durante a convenção, sinais positivos no sentido de que o setor segue adiante”.

Uma novidade este ano, na PDAC 2016, foi a realização, pela primeira vez, do IMMS (International Mines Ministers Summit), que reuniu ministros de energia de 16 países sob a liderança de Jim Carr, ministro de Recursos Naturais do Canadá. O encontro dos representantes de estado foi considerado pelos organizadores como um passo importante no sentido de que a comunidade mineral internacional possa discutir e trabalhar em conjunto para resolver as questões que afetam a indústria. Além disso, 25 parlamentares federais, seis ministros de província/território e dois primeiro-ministros assistiram a convenção.

“É importante que a PDAC construa fortes relacionamentos de trabalho não apenas com os governos federais e provinciais no Canadá, mas também com os governos internacionais para assegurar que a indústria mineral continue a atuar com sucesso e cresça, tanto no Canadá quanto internacionalmente, disse Andrew Cheatle, Diretor Executivo da PDAC. “A convenção é uma excelente oportunidade para mostrar a importância e escala de nossa indústria para o novo governo do Canadá e nós procuramos, através de atividades construtivas realizadas durante a convenção, levar isso adiante”.

Agora no seu 84º ano, a convenção está mais diversificada do que antes, segundo os realizadores, com um grande número de eventos, incluindo a série CSR (Corporate Social Responsibility), com um foco na diversidade da indústria extrativa os programas Capital Market e Aboriginal, foram amplamente apoiados pelos participantes.

A visão dos analistas

Uma das sessões mais concorridas da convenção normalmente é o painel “Commodities and Metals Outlook”, realizada na tarde do domingo, primeiro dia do evento. Abrindo as análises, Mark Bristow, da Randgold Resources Ltd., afirmou que o maior superciclo da história das commodities passou, deixando a indústria de mineração em pior situação do que estava antes: acossada por pesados débitos e enfrentando muitos desafios. Ele analisou as razões que levaram ao insucesso da indústria e em capitalizar a oportunidade representada pelo superciclo e propôs que as companhias mineradoras aprendam a lição se quiserem assegurar o seu futuro em um ambiente difícil. Bristow também examinou os desafios inerentes à reconciliação da indústria, cuja natureza é essencialmente de longo prazo, com as demandas de curto prazo do mercado e explica que a definição de crescimento não é imutável, que muda de stakeholder para stakeholder e em diferentes pontos do ciclo de preços. Ele também sugere que o momento é favorável para novos players na indústria, porque o “sangue novo” pode dar a eles significativa vantagem competitiva sobre as companhias que ainda estão operando numa perspectiva tradicional.

Martin Murenbeeld, da Dundee Capital Markets, afirmou que o preço do ouro em 2016 deve ficar entre US$ 1.209 e US$ 1.279 por onça e para respaldar suas previsões ele fez uma análise dos fatores que influenciam o preço do metal, tais como o desempenho da economia mundial, o movimento de alta/baixa do dólar americano, o preço do petróleo e o movimento das bolsas de valores. Para Murenbeeld, o dólar está muito valorizado e a economia mundial ainda atravessa um período de fraqueza, com baixas taxas de crescimento. “Normalmente o ouro sobe com o dólar, a menos que este esteja declinando em relação a outras moedas. Por outro lado, as altas periódicas do dólar golpeiam o ouro, porque quando o dólar sobe todo mundo quer levar dólar para os EUA”. Ele também disse que a fraqueza econômica não é boa para o ouro, porque quando o crescimento mundial é menor que 4% os preços das commodities caem. Quanto às bolsas, o analista da Dundee afirma que as mesmas competem com o ouro e que a relação dólar/ouro tem sido negativa ultimamente. E a demanda por ouro como investimento, que praticamente “derreteu”, a partir de 2013, deve ter uma reversão em 2016, o que pode ser um fator positivo para os preços.

Daniel Solomon, do CRU Group, fez uma abordagem do mercado de fertilizantes, focando sua análise no fosfato e na competição sobre as regiões chave. Ele disse que alguns produtores estão sendo forçados a sair de determinados mercados, devido ao aumento da competição ou restrições no suprimento de insumos. Além disso, para compensar seus altos custos downstream, alguns produtores estão realizando parcerias ou joint ventures com produtores upstream.

Sobre o mercado de níquel, o analista da Wood Mackenzie, Andrew Mitchell, afirmou que a indústria está sob pressão de custos desde 2012, com os preços do metal se mantendo em torno do 75º percentil da curva de custos de 2013 até o momento. Apesar disto, a indústria prosseguiu com projetos, mesmo tendo uma pequena resposta pelo lado do consumo até 2015. “Por que não houve mais fechamento de capacidades?”, indaga o analista. Ele reconhece que houve uma perspectiva de preços mais altos após o banimento das exportações de minério por parte da Indonésia, que poderia provocar forte redução na produção chinesa de Niquel Pig Iron (NPI) e o mercado entrar em déficit. Entretanto, os estoques na China e o incremento na produção de minério nas Filipinas puseram um final nessa expectativa. Somado a isto, houve a redução da demanda na China, com queda na produção de aço inoxidável, que deve continuar em 2016. Assim, a previsão é que a queda de preços vista no final de 2015 deve continuar. A questão é saber a quanto deve chegar o nível dos preços.

Coube a Philip Macoun, também do CRU, analisar o mercado de zinco, para o qual era esperado, durante algum tempo, um aperto no suprimento. “Os fechamentos de mina previstos se realizaram e ao longo dos últimos meses outros fechamentos e cortes de produção foram anunciados, reduzindo ainda mais o suprimento de zinco”. Segundo ele, poucos projetos novos sobreviveram. No entanto, o equilíbrio previsto do mercado não se materializou e os preços esmaeceram. A questão agora é saber quando a recuperação ocorrerá.

Paul Benjamin, também da Wood Mackenzie, abordou o mercado de cobre afirmando que durante 2015 o crescimento dos estoques, combinado com uma menor demanda, queda nos preços do petróleo e fortalecimento do dólar, contribuíram para puxar os preços do cobre ao seu mais baixo nível desde 2009. As companhias mineradoras reagiram ao ambiente de preços mais baixos procurando implementar melhorias de eficiência e redução de custos, incluindo o fechamento de capacidades em unidades onde os custos de produção eram mais altos. Segundo ele, os esforços para conservar o caixa levaram a cortes significativos na atividade de exploração e desenvolvimento de novos projetos. Um lado bom para os produtores é que ele previu que deve haver incremento de demanda na China, embora os níveis de crescimento de dois dígitos tenham ficado para trás. Tal incremento de demanda levará à necessidade futura de adição de capacidade por novas minas. “A queda de teor e a depleção de reservas nas minas existentes significam que o papel das companhias atualmente engajadas em exploração e desenvolvimento de projetos permanece crítico do ponto de vista de satisfação da demanda por cobre em longo prazo”, salientou o analista. Da mesma forma, continuam os problemas para obtenção de financiamentos e licenças que os desenvolvedores de projetos greenfield e brownfield estão enfrentando. Eles também terão desafios maiores em termos de disponibilidade de energia e água, dificuldades logísticas e limitada infraestrutura portuária, além das questões relacionadas com as comunidades e a licença social.

Participação do Brasil

Embora de forma mais modesta do que em anos anteriores, o Brasil marcou presença na convenção PDAC 2016 de várias maneiras: com um estande capitaneado pela ADIMB, com apoio financeiro da ABDI e de algumas empresas e suporte institucional do Ministério de Minas e Energia, CPRM, DNPM e Ibram; com a realização do Brazilian Mining Day, que contou com apresentações de representantes de entidades e empresas; uma edição especial da revista Brasil Mineral, em inglês, com um panorama atual da indústria mineral brasileira, que foi distribuída aos participantes; um café da manhã organizado pela Câmara de Comércio Brasil-Canadá em Toronto, com palestras de representantes de empresas brasileiras e canadenses, além de autoridades; um almoço também realizado pela BCCC, onde também aconteceram várias palestras; e com estandes, no Investor Exchange, de empresas com projetos no Brasil. Afora os eventos sociais, como o coquetel oferecido pelos organizadores após o Brazilian Mining Day e um jantar oferecido aos brasileiros pela McCarthy Tetrault em sua sede, no coração de Toronto.

O estande brasileiro, onde uma das atrações continua sendo o tradicional cafezinho, a afluência foi menor, um sinal de que o País já não chama tanto a atenção dos investidores. E por parte daqueles que visitaram o estande havia muita preocupação com a situação política e econômica que o Brasil vive, mas também desinformação sobre a real dimensão da crise. Havia quem indagasse se o País estava vivendo uma “convulsão social”.

Diretor-Geral Interino do DNPM, Telton Corrêa, proferindo sua palestra no Brazilian MIning Day

 

O Brazilian Mining Day foi aberto pelo presidente da ADIMB, Marcos Gonçalves, e contou com as seguintes apresentações:

  • Ambiente para Investimentos em Mineração no Brasil, por Carlos Nogueira da Costa, secretário de Geologia, Mineração e Transformação Mineral do MME;
  • Mecanismos para Atração de Investimentos para a Indústria de Mineração e Exploração Mineral, por Miguel Cedraz Nery, diretor da ABDI;
  • Subsídios Geológicos para Exploração Mineral no Brasil, por Marco Túlio Neves Carvalho, da CPRM;
  • Panorama da Regulação Mineral no Brasil, por Telton Elber Correa, diretor geral interino do DNPM;
  • Panorama do Setor Mineral no Brasil, por Carlos Bertoni, consultor;
  • Depósito de Cobre-Ouro de Chapada, no estado de Goiás, por André Luis Idalgo Oliveira, diretor de Exploração da Yamana Gold;
  • Projeto Terras Raras da CBMM – Estágio de Desenvolvimento, por Clóvis Antonio de Faria Souza, da CBMM;
  • Projeto de Fosfato Três Estrelas, no Rio Grande do Sul, por Justin Ried, diretor gerente da Aguia Resources;
  • Depósito de Zinco-Chumbo de Santa Maria: Programa de Exploração e Iniciativas para Ampliação das Reservas, por Julio Cezar Souza Santos, gerente de Exploração Mineral da Votorantim Metais;
  • Projeto Vanádio Maracás, no estado da Bahia, por Andy Campbell, vicepresidente de Exploração da Largo Resources.

O almoço da BCCC contou com apresentações de Joaquim Muniz, da Trench, Rossi e Watanabe; Eduardo Ledsham, ex-diretor da Vale e ex-CEO da B&A; Robert Peterman, diretor de Desenvolvimento de Negócios Globais da Toronto Stock Exchange e TSX Venture Exchange; e Frederico Marques, presidente da BCCC.

Joaquim Muniz afirmou que o Brasil atualmente tem boas oportunidades de investimento, como decorrência da desvalorização do real e previu que a crise econômica atual será revertida em dois ou três anos. Sua expectativa é que o PIB cresça em torno de 2,2% em 2017 e decresça 1,04% em 2016. E apontou o déficit público como o principal problema da economia brasileira atualmente.

Eduardo Ledsham disse que, diante da situação atual do mercado, a indústria de mineração terá que reduzir investimentos e fechar operações menos rentáveis. Mas também salientou que o momento é muito propício para fusões e aquisições. O executivo também é de opinião que as regiões de Tapajós e Carajás ainda guardam um grande potencial a ser descoberto, ao mesmo tempo em que recomendou que o foco das companhias mineradoras deve ser investimentos em inovação e tecnologia.

Já o representante da TSX apontou que os negócios de mineração caíram muito na bolsa canadense, passando de 25% do total, em 2010, para 8% em 2015, o mesmo acontecendo com o volume de captações. Tanto que, dos US$ 19,8 bilhões captados em 2015, apenas US$ 2,123 bilhões foram para mineração. E no caso da junior companies o quadro é pior: no pico do boom da mineração, em 2007, as companhias de exploração mineral captaram US$ 4,28 bilhões através de 418 ofertas de ações na TSX Venture. Já em 2015 as junior captaram apenas US$ 175 milhões, através de 29 ofertas. Na década passada, as emissões de mineradoras representavam pelo menos 40% das empresas listadas, enquanto no último ano elas foram apenas 10%.

Revista Brasil Mineral nº 360 - abril/2016 - Francisco Alves

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