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Falta de água ameaça a exploração mineral na Argentina

A Argentina está promovendo uma nova era de produção mineral e energética, ao receber bilhões de dólares em investimento externo para explorar enormes novas reservas de gás natural, petróleo, ouro, lítio e outros metais outrora tidos como pouco lucrativos ou de difícil acesso.

Mas há um fator que ameaça esse boom de recursos naturais, algo que os políticos e os executivos do setor energético raramente mencionam: serão necessários enormes volumes de água para essas operações, num país em que a escassez de água emperra o desenvolvimento e em que 16% das famílias ainda não estão conectadas às redes de água potável tratada.

A concretização da prometida fortuna energética a partir da exploração do grande depósito argentino de petróleo e gás de xisto anunciado neste ano poderia exigir, segundo técnicos, cerca de 144 bilhões de litros de água - o equivalente ao volume total diário de água abastecido pelo sistema público a todo o território dos EUA.

Entre os demais projetos de peso está o de Pascua Lama, a mina de ouro de maior altitude do mundo, que deve ser aberta ao longo da espinha dorsal dos Andes e produzir metais preciosos por 25 anos. A rocha será processada do lado argentino da fronteira com o Chile com uma mistura de cianureto e 53 bilhões de litros de água, diz a mineradora canadense Barrick Gold.

A empresa afirma empregar menos de 1% da água dos rios disponível em suas minas de ouro. Mas, à jusante, na província de San Juan, as pessoas já enfrentam restrições e precisam pagar 99 vezes mais pela água do que é fornecido pela Barrick Gold, segundo os termos de seu contrato com as autoridades provinciais, disse o parlamentar Miguel Bonasso, presidente da comissão de recursos naturais do Congresso da Argentina. "Se a Barrick Gold tivesse de pagar por essa água, não investiria na mina - não seria lucrativo", diz ele.

O Ministério da Mineração da Argentina, por seu lado, estima que possam ser explorados US$ 50 bilhões em lítio somente nas salinas da província de Jujuy, valor aproximadamente equivalente ao total das reservas cambiais do país. A extração de lítio para seu emprego nas baterias que ativam telefones celulares, laptops e carros elétricos demanda água para criar uma água salgada suja, que, segundo temem grupos indígenas, comprometerá seu meio de sustento tradicional, baseado na coleta de sal.

Mas o que concentrou mais atenção recentemente foi a descoberta de um enorme depósito de gás e petróleo confinado em massa rochosa de xisto a muitos metros de profundidade abaixo da bacia de Vaca Muerta (vaca morta), na província de Neuquén. Embora 90% de seus principais depósitos estejam inexplorados, Vaca Muerta pode aumentar as reservas de petróleo argentinas em pelo menos 750 milhões de barris, e provavelmente o triplo disso, disse Michael Lynch, analista do setor petrolífero e presidente da Strategic Energy and Economic Research.

Vaca Muerta encerra também um volume estimado em 4,5 trilhões de pés cúbicos (127,426 bilhões de metros cúbicos) de gás natural, segundo a empresa energética espanhola Repsol-YPF.

A descoberta aumenta as reservas de gás de xisto "tecnicamente recuperáveis" para 774 trilhões de pés cúbicos (21,917 trilhões de metros cúbicos), segundo estimativa do Departamento de Energia dos Estados Unidos, o que transforma potencialmente a Argentina na terceira maior produtora mundial de gás xistoso, atrás da China e dos Estados Unidos.

Por muito tempo tidos como sem valor, esses depósitos estão atualmente acessíveis por meio do que é conhecido como "fratura hidráulica com água e químicos e prospecção horizontal", ou "fracking", em inglês. Essa tecnologia americana envolve realizar perfurações profundas para baixo e depois horizontais do xisto, desencadear explosões e injetar uma mistura de água, areia e produtos químicos, sob alta pressão, para forçar o combustível para a superfície.

O "fracking" requer de 19 a 23 milhões de litros de água por poço, e serão necessários muitos milhares de poços para extrair o que eles esperam produzir, disse Anthony R. Ingraffea, professor de engenharia da Universidade Cornell, especialista na mecânica complexa de fratura de rochas em alta profundidade no subsolo. Na árida região ocidental da Argentina, a água terá de ser extraída dos aquíferos subterrâneos ou dos reservatórios e rios alimentados pela neve e pelas geleiras andinas.

Uma vez usada para a fratura, a água fica, normalmente, contaminada demais para ser reciclada em água potável ou para uso agrícola. Nos Estados Unidos, essa água servida é muitas vezes injetada em grandes profundidades no subsolo, onde, segundo os ambientalistas, não há garantia de que ela não venha a contaminar o lençol freático.

A técnica da fratura varia de acordo com a configuração geológica de cada região, mas o depósito de xisto de Barnett, no norte do Texas, igualmente seco, explorou mais de 15 mil poços para produzir mais de 8,8 trilhões de pés cúbicos (249,19 bilhões de metros cúbicos) de gás em 18 anos, informou o Estado do Texas. Portanto, se Vaca Muerta precisar de aproximadamente metade desse número de poços para produzir metade desse volume de gás, poderão ser necessários 143,8 bilhões de litros de água para extraí-lo, com base no que Ingraffea qualifica como um padrão conservador do setor, de 18,9 milhões de litros por poço.

"Indiscutivelmente, isso é muita água, é água demais", disse Daniel Talliant, diretor do Centro de Direitos Humanos e Meio Ambiente da Argentina. "Eu enfatizaria também a importância e o risco que isso representa para os aquíferos subterrâneos, que são um recurso natural decisivo e delicado."

Valor Econômico - 10/10/2011 - Alexander Wilson

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