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Paradigm Campanha 28082014

O geólogo por trás do portal

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Formado na turma de 1971, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Pedro Jacobi fez da geologia sua profissão de fé. Desde o início da carreira, como geólogo júnior da Terraservice, passando pela Vale e Billiton, até deixar o cargo de gerente geral de Exploração Mineral para o Brasil na Rio Tinto e, com ele, o mundo corporativo da grande mineração. Não queria mais "vender a alma em troca de dólares e algum status", explica. De mais a mais, se tantas jazidas descobrira com suas equipes para players do setor, o que o impedia de descobrir novas para si próprio?

A resposta a essa pergunta não se fez esperar. Em 2002, com seus dois filhos, criou a Jacobi Mineração. A lição aprendida com essa primeira experiência de bancar uma empresa de prospecção mineral por conta, capital e risco próprios, o levou a buscar investidores em outros países. Sua primeira junior company internacional surgiu em 2004. A mais recente, em 2011. Nesse período afirma ter investido mais de R$ 50 milhões no Brasil, empregado centenas de funcionários e descoberto jazimentos de mais de US$ 10 bilhões, com negócios, hoje, também na Austrália, Canadá e África. "Nada mal para a primeira década", avalia.

É de 2002 também a fundação do Portal do Geólogo, que se consolidou como referência em geologia e mineração atraindo executivos, engenheiros, técnicos e outros profissionais do setor, além de professores, estudantes e, claro, geólogos. Gratuito aos usuários, o portal contabilizava, nos 54 dias iniciais de 2014, cerca de 3,1 milhões de visualizações ou quase 60 mil acessos por dia.

Crítico contundente do projeto do novo Código de Mineração, Jacobi não mede esforços para visitar congressistas em Brasília (DF), onde mora, participar de fóruns e debates sobre o tema e, de quebra, alfinetar em bom e claro português o governo federal e, em particular, o Ministério das Minas e Energia (MME), através de artigos de lavra própria no portal.

Nesta entrevista exclusiva à In The Mine, o geólogo fala de sua trajetória profissional, de política mineral e de sua determinação em lutar para que o direito de prioridade seja assegurado no novo código. Como não poderia deixar de ser, fala bastante de geologia e mineração. Afinal, diz, "não há nada criado pelo homem, que não tenha a contribuição de um geólogo ou minerador".

ITM: Após uma carreira promissora em grandes empresas de mineração, o que o levou a partir para o empreendedorismo?

PJ: Como todo geólogo em início de carreira, eu queria ser um profissional respeitado e exercer cargos executivos de destaque dentro de grandes empresas globais. No entanto, na medida em que fui tendo uma carreira bem sucedida percebi que, literalmente, estava vendendo a minha alma em troca de dólares e algum status. Percebi, também, que as minhas equipes de geologia, por melhor que trabalhassem, sempre estariam atreladas às diretrizes e estratégias de uma empresa estrangeira que priorizava, naturalmente, as suas origens.

Não era apenas a questão ideológica de não "vender a alma", mas também a visão de que o trabalho era desvalorizado...

Sim. Na Rio Tinto, por exemplo, descobrimos vários jazimentos de ouro, carvão, caulim, ferro, titânio, cobre e diamantes que foram, todos, preteridos, pois, segundo a matriz, não tinham o tamanho mínimo idealizado pela empresa que, aliás, era quase impossível de encontrar. Assim, todos os jazimentos que descobrimos, muitos podendo ser até maiores do que pensávamos, seriam lavrados eventualmente. Com essa estratégia das grandes empresas estrangeiras, o Brasil deixou de receber bilhões de dólares. Esse choque de realidade me fez abandonar a carreira junto às multinacionais.

Criando seu próprio negócio?

Parti do princípio que, se eu conseguia achar jazidas para essas grandes mineradoras, poderia achar, também, para uma empresa minha. Foi então que criamos, eu e meus filhos, nossa primeira holding: a Jacobi Mineração, em 2002. E, após reunir projetos de alta qualidade, sempre com capital próprio, eu tive a minha primeira grande lição sobre junior companies no Brasil.

Como assim?

Aqui não existiam investidores interessados em financiar pesquisas minerais, por mais promissoras que pudessem ser. Faltava essa cultura ao setor e os "investidores" brasileiros da mineração se limitavam a comprar ações da Vale ou Paranapanema. Pior ainda, não existia uma bolsa de valores onde um empresário como eu pudesse abrir o capital da sua empresa (IPO) e, através da venda de ações, financiar seus projetos. Foi uma fase difícil que, ainda hoje, inviabiliza a maioria das tentativas de mineradores brasileiros que tem, como única opção, a venda de suas áreas, geralmente por valores espúrios para mineradores maiores.

Qual foi a alternativa então?

Fomos em frente até encontrarmos, nos Estados Unidos (EUA), investidores que acreditaram em nossos projetos brasileiros. Assim, em 2004, foi criada a Majestic Diamonds & Metals, nossa primeira junior company internacional, que nos tem como maiores acionistas até hoje. Com dinheiro, tudo ficou mais fácil e descobrimos vários jazimentos de interesse econômico de ouro, ferro e diamantes. Decidimos, então, criar novas empresas, uma para cada commodity. Uma delas foi a D10 Mineração, inicialmente uma joint venture com uma empresa australiana. Investimos vários milhões de dólares e descobrimos muitos kimberlitos de elevado potencial, alguns diamantíferos. Como a empresa cresceu rapidamente, começamos a fazer seu IPO em Toronto, no Canadá.

Além da D10 Mineração, havia outras companhias?

Sim. Ocorre que veio a crise econômica de 2008 e nossa empresa, que era a crème de la crème, viu todos os investidores de diamante, que é uma aplicação de alto risco, fugirem. Somente agora, seis anos depois, é que eles começam timidamente a voltar. No entanto, como tínhamos outras "balas na agulha", pudemos ir em frente e evoluir.

Quais eram as outras empresas?

Uma delas é a Braziron, criada em 2008, que possui mais de 700 Mt de minério de ferro na Bahia (BA) e capital aberto na Bolsa de Sidney, Austrália. Em 2010, abrimos a Golden Tapajós e a Boa Vista Gold, na região do Tapajós (PA), onde descobrimos jazimentos com potencial para 1,5 milhão de onças de ouro e 336 mil onças já cubadas. Essas áreas foram negociadas recentemente com a canadense Brazil Resources, que se prepara para iniciar sua lavra. Em 2011, fundamos a O2iron Mineração, com reservas de mais de 1,2 Bt de minério de ferro aflorante e 451 Mt medidas até o momento. É um jazimento world class que vai mudar muitos paradigmas desse tipo de operação.

Como você avalia o boom mais recente da pesquisa mineral no Brasil, entre 2007 e 2009?

Os anos do boom foram extraordinários, com grandes negócios fechados quase que imediatamente. Os due diligence da época demoravam 30 dias e a avaliação financeira dos projetos era enorme. Foi assim que Eike Batista conseguiu vender seus ativos de minério de ferro por vários bilhões de dólares, no último grande negócio da mineração antes da crise. Essa fase áurea poderia ter sido usada para a criação de uma bolsa de valores para as junior companies nacionais, mas a notória falta de visão dos nossos governantes provavelmente adiou a entrada de dezenas de bilhões de dólares que poderiam já ter alimentado a economia brasileira.

Qual sua avaliação da suspensão das concessões de lavra e alvarás de pesquisa pelo MME no final de 2011?

É a pior possível. Como se não bastasse o dinheiro escasso e os imensos prejuízos causados pela crise de 2008, exatamente quando o setor iniciava uma recuperação, o MME faz uma das mais esdrúxulas e pouco inteligentes tomadas de decisão: paralisar as concessões de lavra e de alvarás de pesquisa. Tudo porque alguns burocratas do governo acreditavam que conseguiriam aprovar o novo MRM na marra, em poucos dias. Isso ocorreu há quase três anos e o desastroso MRM ainda não foi aprovado, demonstrando a falta total de percepção desse pessoal. O caso, infelizmente, acabou com a pesquisa mineral no Brasil.

Quais os reflexos da medida?

As empresas juniores de mineração que investem quase US$ 700 milhões a cada ano, do bolso próprio, em pesquisa mineral no Brasil, perderam a confiança no governo. Sem a liberação de suas áreas de pesquisa pelo DNPM, paralisaram os projetos e começaram a maior demissão em massa que o setor já viu. Isso acarretou um efeito dominó que atingiu as prestadoras de serviço, sondadoras, laboratórios e vários milhares de profissionais – geólogos, engenheiros e técnicos. Um verdadeiro desastre causado pelo governo que, em lugar de fomentar e proteger, paradoxalmente exterminou o setor com o desprezo de quem mata baratas.

Você tem criticado severamente o projeto do novo MRM...

É um projeto feito, muito obviamente, por quem nada entende do setor. Foi baseado na mineração do petróleo, onde sempre existiu a Petrobras como monopólio e pesquisadora única, descobrindo os campos e licitando-os em leilões onde quem pode mais ganha. Na mineração, a pesquisa sempre foi feita por empresas de pesquisa, nunca pelo governo. Quem tem investido bilhões de dólares, ao longo dos anos, somos nós, os pesquisadores minerais. É através desses investimentos que desenvolvemos nosso know how, experiência e um banco de dados sobre as várias áreas minerais do Brasil.

Com garantia legal do direito de prioridade.

Sim. Quem acha e é o primeiro a requerer a área junto ao DNPM, tem o direito de explorá-la, se seguir as regras do jogo que são muitas e bem elaboradas. É assim no Canadá, Austrália, EUA e praticamente em todo o mundo. No entanto, o projeto do novo Código de Mineração, escrito entre quatro paredes por poucos, sem consultar mineradores e demais segmentos da sociedade, quer acabar com esse direito. Ou seja: tudo o que a empresa encontrar, mesmo que tenha investido tempo, grandes somas e capital intelectual, será dado ao governo e irá para licitação pública. Milhares de novas áreas serão ganhas, quase que exclusivamente, por grandes empresas do setor. Quem irá pesquisar correndo o risco de investir e nada levar? Sem considerar o que é público e notório: a licitação no Brasil é solo fértil para a corrupção onde ganha quem tem esquema e paga mais.

O Serviço Geológico do Brasil (CPRM) teria condições de assumir essa incumbência?

A CPRM é uma empresa que um dia foi grande, mas que se esclerosou ao longo de décadas de quase nada fazer, nada investir e nada descobrir. O governo pretende que ela seja a única a fazer pesquisa mineral no Brasil, assim como a Petrobras vem fazendo por décadas. É um sonho quase impossível no momento. Para ser uma "Petrobras" da mineração, a CPRM deverá passar as próximas décadas investindo bilhões, aprimorando sua equipe e descobrindo jazidas: tudo aquilo que nós, as empresas de pesquisa e prospecção mineral, já estamos fazendo e que nada custa para os cofres públicos.

Como solucionar esse impasse?

Seria necessária uma pitada de inteligência que parece em falta em alguns setores do Planalto: dar para a CPRM áreas que o governo considera de alta importância estratégica, como as que contem urânio, potássio, fosfato e terras raras, por exemplo, que ela possa, efetivamente, pesquisar com o orçamento e pessoal de que dispõe. O restante deve ser aberto a todos os mineradores com direito de prioridade garantido.

O projeto original do novo MRM foi alterado e incorporou algumas sugestões do setor.

Algumas soluções foram percebidas e inseridas no ajuste do novo Código Mineral pelo relator, deputado Leonardo Quintão. Infelizmente, o governo se coloca frontalmente contra o direito de prioridade apesar das inúmeras soluções apresentadas por representantes do setor mineral nas múltiplas reuniões e encontros dos últimos meses. A nossa luta vai continuar até que o direito de prioridade seja efetivado no novo código mineral. É importante enfatizar que não estamos contra o aumento de impostos (CFEM) que o projeto propõe e que pode significar, em alguns casos, um aumento superior a 100% nos custos das mineradoras.

Além do novo Código, quais outros entraves ao desenvolvimento do setor você considera mais preocupantes hoje?

São a falta de investimentos em infraestrutura, leis sólidas e confiáveis que não punam quem investe e a falta de mecanismos de captação de financiamentos que atendam as empresas de prospecção e pesquisa mineral. No Brasil, até hoje, uma área com reserva medida de bilhões de toneladas de minério, com valores de bilhões de dólares, não consegue financiamento para ser desenvolvida. No resto do mundo, onde a mineração é considerada fundamental, existem os bankable feasibility studies para lastrear financiamentos bancários, com as áreas colocadas como garantia e as bolsas de valores permitindo a abertura de capital com lançamento de ações de juniores da mineração.

Além das junior companies, você fundou o Portal do Geólogo, hoje uma referência em informação para o setor mineral. Por quê?

Quando me formei em geologia, nossa profissão era desconhecida do grande público: "geo...o que?" Em 2003, resolvi fundar o Portal do Geólogo como forma de criar um espaço para geólogos, mineradores e demais profissionais das ciências da terra. Nesses 11 anos de trabalho ininterrupto, sem nenhum financiamento externo, conseguimos desenvolver o maior website de conteúdo grátis da América Latina. Um trabalho que me dá muito orgulho.

Qual é a linha editorial do portal? Você já angariou desafetos com essa orientação?

Consegui alguns inimigos ferrenhos, é claro. Mas também muitos usuários e amigos fiéis que buscam nas nossas matérias algum insight para a geologia e mineração futura, pois esse é um dos produtos que oferecemos. O Portal do Geólogo não é um veículo para tratados de geologia e mineração. Nosso foco são informações concentradas e estruturais, que sirvam para o leitor montar seu quebra-cabeça em um mundo mineral complexo e dinâmico. Queremos dar sempre "algo mais", uma opinião técnica ou um direcionamento, fruto dos nossos mais de 46 anos de geologia e mineração. Mesmo batendo no governo, quando esse faz por merecer, o portal é apartidário. Somos pró-Brasil, pró geologia e pró-mineração. Acho que acertamos na fórmula: nossos índices só crescem e os e-mails favoráveis aumentam todos os dias.

O Portal do Geólogo pode ser visto como uma abertura no mundo low profile da mineração?

O pessoal de geologia e mineração tem uma cultura diferente. Por décadas, nós geólogos fomos considerados os poetas da mineração e habitávamos tendas nas selvas, trabalhando nos lugares mais inóspitos do planeta. Nossa comunicação ocorria em volta da fogueira ou nas mesas dos bares. Nessas condições difíceis forjou-se um grande profissional, absolutamente dedicado, capaz de grandes sacrifícios para exercer seu trabalho, curioso e estudioso, que ama a natureza como poucos. Ocorre que, a partir da década de 1990, muitos de nós começamos a gerenciar e conduzir grandes empresas globais atingindo os cargos mais altos da indústria. Daí ao nascimento dos primeiros geólogos empresários, donos de junior companies bem sucedidas, foi um pequeno passo.

A Internet também mudou o conceito de comunicação, não é?

Ainda persiste um pouco da fogueira dos acampamentos na nossa comunicação. Mas com a Internet é que as coisas mudaram de fato. Um exemplo recente foi a criação de vários grupos de debate nas redes sociais como o "Movimento Consciência Mineral" e o "Exploração Mineral" que tem, juntos, no Facebook, mais de 3 mil geocientistas debatendo o projeto do novo código mineral. É através do fenômeno da Internet, que portais como o nosso e revistas como a In The Mine, conseguem colocar, literalmente, na mesma página algumas dezenas de milhares de profissionais do setor, algo nunca antes cogitado. Esse número é pequeno, mas poderoso, representando uma grande fatia do PIB e bilhões de dólares anuais em investimentos e em produção. Afinal, não há nada criado pelo homem, que não tenha a contribuição de um geólogo ou minerador.

Qual parte da mineração brasileira o governo federal não entendeu até agora?

O nosso governo entende muito bem de arrecadação. Mas, quando chega a hora de investir em infraestrutura, ferrovias e portos a coisa muda e os números são pífios. O governo tem que entender que se uma pequena parte do potencial geológico do Brasil for convertida em minas, o País terá um crescimento e desenvolvimento enormes. Basta criar mecanismos de financiamento aos mineradores, investir em infraestrutura e em grandes levantamentos geológico-geofísico-geoquímicos básicos. O resto nós faremos.

Você participa de associações profissionais ou de entidades ligadas ao setor?

Não. Por décadas, venho observando essas associações e, em alguns momentos, participei de alguns eventos. Mas a falta de atividade e de resultados é quase uma marca registrada delas. O IBRAM, que é a maior entidade da mineração do Brasil, só representa os interesses dos grandes mineradores que pagam suas contas. É uma relação simbiótica e pouco representativa, no meu entender. A entidade devia ser chamada de IBRAGM, Instituto Brasileiro dos Grandes Mineradores. Devia rever as frases da sua Missão. Hoje, a ausência do IBRAGM, ops, do IBRAM, no cenário do pequeno e médio minerador que faz a pesquisa mineral e está ameaçado pelo novo MRM, fez com que eles praticamente criassem, em 2012, uma nova entidade que é a ABPM (Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa Mineral). Essa, no momento, é a mais atuante no setor e com a qual eu tenho me comunicado mais.

Em sua opinião, qual é o papel do geólogo na atualidade e quais campos de trabalho são mais promissores?

A importância do geólogo não deixa de me surpreender. É uma profissão com um alcance tão grande quanto o próprio universo que ela estuda. O geólogo é um dos principais "tradutores" dos processos naturais, descobrindo, interpretando, mitigando, estudando e auxiliando a humanidade a melhor se adaptar ao planeta onde vivemos. Recebo, quase que diariamente, e-mails de estudantes que querem cursar geologia. No caso da prospecção mineral e da mineração, por seu entrelaçamento com a economia, é sempre muito difícil fazer projeções. Para além da pesquisa e prospecção mineral, a geologia se torna, a cada dia, a Ciência da Terra e do Cosmos onde novos campos são desenvolvidos, somando-se às dezenas de áreas tradicionais existentes. É o caso do auditor geológico, geólogo forense e de analistas de entidades financeiras. No meu entender, sempre haverá lugar para geólogos envolvidos em prospecção mineral, meio ambiente, mineração, educação, petróleo, energia e minerais industriais.

In The Mine - 29/04/2014 - Tébis Oliveira

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