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Ricardo Reis

Até há cerca de uma década, a curva da oferta no mercado do petróleo começava com um segmento horizontal correspondente à produção dos países da OPEP, cujo custo por barril é baixo e relativamente constante, seguido por um segmento muito inclinado correspondente ao resto do mundo, no qual extrair mil barris adicionais custa cada vez mais. Isto tinha duas implicações para o preço do petróleo.

Primeiro, a OPEP restringia a produção para encurtar o tamanho do segmento horizontal e assim levar a um preço bem acima do seu custo de produção. Segundo, pequenas mudanças na procura, que no passado recente tinham a fonte na economia chinesa, levavam a grandes flutuações no preço. Logo, para perceber o mercado do petróleo, era preciso ser perito em geopolítica da OPEP e em economia chinesa.

Esse mundo já não existe. A grande mudança foi a enorme inovação na extração do petróleo de xisto. Ela criou a capacidade de produzir petróleo a um custo relativamente constante acima do da OPEP. Como antes, a nova curva de oferta começa horizontal a nível do custo na OPEP e depois fica quase vertical. Mas quando chega aos 40 a 50 dólares o barril a oferta fica novamente pouco inclinada, correspondendo ao petróleo de xisto. Compreender o mercado do petróleo muda de duas formas.

Primeiro, a OPEP agora não consegue gerar um preço acima do custo de produção no petróleo de xisto. Por isso ela quer aumentar a produção para que a curva da oferta se cruze com a procura no ponto onde o segmento horizontal do xisto começa. Os seus lucros nunca serão os mesmos. De uma perspetiva mais dinâmica, a OPEP gostaria de manter o preço bem abaixo desse nível durante muitos anos (com lucros mínimos) para que os produtores de petróleo de xisto nunca entrem no mercado. Só que esta estratégia requer imensa coordenação e exclui alguns membros, cujos preços de produção são mais altos. Não é uma estratégia que os países do Médio Oriente consigam implementar sozinhos. A coordenação estratégica determinante passa a ser entre diferentes segmentos do mercado em vez de entre países.

Segundo, quando o mercado está no novo segmento plano da curva da oferta, as mudanças na procura deixam de ter efeito no preço. A economia chinesa já não é importante. A incerteza no preço vem agora do custo de produção do petróleo de xisto. Não só a inovação tecnológica continua de forma difícil de prever como a produção do petróleo de xisto requer um período de aprendizagem, que difere de campo para campo e com custos de transporte que flutuam bastante. Logo, o novo segmento plano da curva da oferta mexe-se para cima e para baixo, e isto muda o preço.

Por isso, prevejo que na discussão sobre o petróleo os especialistas em geopolítica vão lentamente desaparecer. Serão substituídos por mais engenheiros e economistas que percebam da tecnologia do xisto e da interação entre os diferentes segmentos do mercado. A disrupção também chega ao mercado dos comentadores.

Professor de Economia na Universidade de Columbia, em Nova Iorque

Dinheiro Vivo - 23/05/2016

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