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O estupro da terra

Liszt Vieira

Correu o mundo a famosa foto da água saindo da torneira e pegando fogo. O fato ocorreu na pequena cidade de Dimock, na Pensilvânia, nos EUA. O fogo se deve à presença de metano, liberado pela exploração de gás de xisto nas redondezas.

As áreas vizinhas aos poços de exploração de gás de xisto já tiveram de suportar explosões, contaminação do lençol freáti-co e da terra agricultável, inviabilizando a produção agropecuária, além de pequenos abalos sísmicos, em regiões onde as construções não estão preparadas para tremores de terra.

A exploração de xisto utiliza o método de fraturação hidráulica, chamado em inglês defracking. Trata-se de injeção de toneladas de água, sob altíssima préssão, misturada com areia e produtos químicos, com o objetivo de quebrar a rocha e liberar o gás nela aprisionado.

Após inúmeros protestos da população, alguns estados da América do Norte, como Nova York, Maryland e Ohio nos EUA, Quebec no Canadá, proibiram o fracking. Na Europa, a fraturação hidráulica está proibida na França, na Bulgária e em diversos governos locais de vários países (Alemanha, Espanha, Irlanda e Holanda).

Esse tipo de extração utiliza 20 vezes mais água do que as técnicas convencionais. As pequenas cidades americanas nos arredores dos poços enfrentaram problemas de falta d agua para consumo e agricultura, além da contaminação dos aquíferos subterrâneos e das reservas de água potável. Tudo isso pára uma duração de vida relativamente curta: o pico de produção é alcançado em dez anos e a produtividade começa a cair a partir do primeiro ano.

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) decidiu realizar um leilão quinta-feira passada para pesquisar a exploração de gás de xisto nas bacias de Parecis, Recôncavo, Acre, Pamaíba, São Francisco e Paraná. A Associação Brasileira de EngeI nharia Sanitária e Ambiental e mais 12 entidades enviaram à presidente Dilma Rousseff um pedido para cancelar o lei-Ião. E um parecer técnico de um grupo de trabalho coordenado pelo Ibama alertou que o Brasil não tem estudos geológicos suficientes para uma exploração segura de gás não convencional.

No caso do Paraná, a rocha a ser fratu-i rada (o Folhelho Irati) se encontra a algumas centenas de metros abaixo do Aquífero Guarani, considerado a maior reserva subterrânea de água doce do mundo, abastecendo o Brasil e países vizinhos. Pelo menos metade da água injetada retoma à superfície com aditivos químicos e metais pesados. A contaminação do Aquífero Guarani seria uma catástrofe ecológica de impacto internacional.

Do ponto de vista econômico, especula-se que a expansão massiva da produção de gás poderá reduzir a demanda e o preço do petróleo, o que desestimularia os pesados investimentos de longo prazo no pré-sal. Parece estar faltando planejamento estratégico na área energética e, principalmente, planejamento integrado de energia e meio ambiente.

Do ponto de vista jurídico, o Brasil é signatário de tratados internacionais que recomendam o princípio da precaução, ignorado pela ANP ao leiloar áreas para a exploração de gás de xisto sem regulamentação e estudos de impacto ambiental, contando certamente com o silêncio complacente das autoridades ambientais.

Liszt Vieira é doutor em sociologia pelo Iuperj e foi secretário estadual de Meio Ambiente

O Globo - 01/12/2013


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