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Expedição ao polo NorteValor Econômico - "Você é bem-vindo para estar conosco, desde que ninguém perceba que esteve aqui." É com esse tom quase rude que Svalbard estimula a invisibilidade a seus visitantes. O remoto arquipélago no Círculo Polar Ártico, território da Noruega e dos ursos polares, tem motivo para a hostilidade: o Ártico está sentindo os efeitos da mudança climática como nenhum outro lugar do planeta. É ali, no extremo Norte, que as geleiras derretem, o gelo marinho mingua a cada verão, a água do mar está mais ácida. Não há lugar mais vulnerável. A ameaça mais forte vem do CO2. Produzido na queima de combustíveis fósseis e no desmatamento, o mais célebre gás do efeito estufa é um duplo vilão. Aquece a temperatura e cria outro problema, menos conhecido, ao alterar a química dos oceanos. Os mares absorvem quase um terço do CO2 da atmosfera, mas nesse processo suas águas se tornam mais ácidas. A mudança tem impacto na vida marinha. Como águas frias absorvem mais CO2, o Ártico tem mais esse risco. Cortar emissões parece mais urgente. Mas a região vive a ironia da cobra que morde o rabo. Os habitantes de Longyearbyen, a cidade mais importante do arquipélago, enxergam a redução das geleiras de seu quintal, mas vivem da extração de carvão. Ny-Ålesund, o vilarejo de pesquisas mais ao norte do mundo, move-se a diesel. A situação se agrava com a corrida pela exploração dos recursos das áreas que o aquecimento libertou do gelo. Há novos espaços para a prospecção de petróleo, a pesca e talvez a abertura de outra rota entre Atlântico e Oriente. Para esses interesses, o Ártico sem gelo é a última fronteira. Para ambientalistas, o Ártico sem gelo é a fronteira final. Temem pela pressão ainda maior sobre um ecossistema frágil que já sofre com a mudança do clima e pedem moratória nas atividades exploratórias enquanto não se entendem as vulnerabilidades da região. Neste verão polar, o Greenpeace, uma das entidades mais ativas na proteção do Ártico, viveu uma experiência incomum. Seu maior barco, o Esperanza, levou a Svalbard equipamentos gigantes para que pesquisadores pudessem estudar os impactos da acidez do mar na vida marinha. O Valor acompanhou alguns dias dessa expedição sem precedentes durante duas semanas de julho. Esta edição do "Eu& Fim de Semana" é um convite ao universo polar do Norte, às particularidades de Longyearbyen, às pesquisas dos cientistas em Ny-Ålesund e à rotina dos ativistas de uma das ONGs mais famosas do mundo. Foram 15 dias sem fim, nos quais a luz do Sol nunca esmaeceu e a escuridão surgiu só uma vez, repentinamente, em um lugar improvável. Para novatos em ambientes polares, o batismo se dá com uma brincadeira: por que, afinal, urso polar não come pinguim? Aquele outro problema do CO2Em frente ao porto de Ny-Ålesund, o prédio cinza de dois andares é um moderno laboratório marinho. Foi ali que, durante cinco semanas, cientistas de nove países conduziram um estudo sem precedentes no Oceano Ártico sobre um fenômeno conhecido como "aquele outro problema do CO2". O CO2, ou dióxido de carbono, até as focas daqui sabem, é um dos gases que provocam o efeito estufa. As emissões de CO2 produzidas pela queima de combustíveis fósseis e desmatamento cresceram rápido nos últimos dez anos. Os oceanos funcionam como um sumidouro fundamental e absorvem cerca de um terço das emissões - esse é o lado bom da história. O ruim não tem a ver com aquecimento global nem efeito-estufa, mas com o CO2 no mar. Quando os oceanos absorvem o gás, uma reação acontece e forma ácido carbônico. O resultado é que o pH da água do mar fica menos alcalino e mais ácido. Lembrando a aula na escola: a escala de pH vai de 0 a 14, sendo 7 o valor neutro. O pH da água do mar é ligeiramente alcalino, ou seja, pH próximo a 8,2. O intenso processo de absorção do CO2 aumenta a acidez dos mares. É essa situação que ficou conhecida por acidificação dos oceanos - ou "aquele outro problema do CO2". Trata-se de um problemão. A acidez dos oceanos aumentou 30% desde a Revolução Industrial e continua nessa toada. A química do processo já é bem conhecida, mas a ciência ainda engatinha no entendimento do que está acontecendo dentro do mar, no mundo das algas e dos peixes. A dimensão mais famosa desse problema é o processo de enfraquecimento da estrutura dos corais. Recifes de corais são as "florestas tropicais dos mares". Garantem alimento e proteção costeira a milhões de pessoas, além de abrigar um quarto das espécies marinhas. Não é pouco o que está em risco. O que está acontecendo com espécies microscópicas de algas do fitoplancton e pequenos animais do zooplancton, a base da cadeia alimentar marinha, com a água alterada? Pesquisadores do mundo todo têm procurado respostas. Mariscos, moluscos, ostras e outros organismos que produzem conchas e esqueletos de carbonato de cálcio devem estar sentindo o baque, imagina-se. No documentário "A Sea Change" (Uma Mudança no Mar), que mostra a preocupação do historiador aposentado Sven Huseby com o mundo onde seu neto Elias irá viver, uma experiência simples esclarece o que acontece com um organismo de cálcio submerso em um líquido ácido. Uma pesquisadora mergulha um dente de leite dentro de um copo de Coca-Cola. Um mês depois, o dente está rachado. O assunto é tão preocupante que a Comissão Europeia fundou, em maio de 2008, o Projeto Epoca (European Project on Ocean Acidification), com o objetivo de entender melhor o que está acontecendo nas profundezas. Trata-se de um esforço multinacional, de nove países europeus. São mais de cem pesquisadores de 29 institutos de ponta debruçados sobre o assunto. Há pesquisas importantes também acontecendo nos Estados Unidos, no Japão, na Coreia, na China e na Austrália, só para citar alguns. Ok. Mas e o Ártico, por que Ny-Ålesund, por que os mesocosmos? "O Ártico será o primeiro a sofrer o impacto e também o oceano que sentirá o efeito mais forte", diz sem meias-palavras o pesquisador Ulf Riebesell, oceanógrafo do Leibniz - Institut für Meereswissenschaften (IFM-Geomar), da Universidade de Kiel. "Foi por isso que viemos aqui." A absorção de CO2 é mais intensa em águas frias, os oceanos polares estão entre os mais produtivos do planeta e seu ecossistema é dos mais vulneráveis. Os estudos com os mesocosmos no Ártico são a primeira experiência em larga escala do gênero. A ideia é olhar o que está acontecendo com vários grupos de bichos e plantas no lugar onde vivem. Riebesell, também professor de oceanografia biológica, comandou em Ny-Ålesund os trabalhos em campo de 35 pesquisadores de 12 centros de pesquisa. Colocaram os nove mesocosmos que o Esperanza trouxe da Alemanha em um ponto do Kongsfjord, não muito longe de Ny-Ålesund. Dentro desses gigantescos tubos de ensaio, com capacidade para 55 mil litros de água, estavam moluscos e algas que vivem nessas águas geladas. Entre as estrelas estavam algas vermelhas muito comuns por aqui e pequenos moluscos chamados pteropodes, que nadam como se fossem borboletas marinhas, com estruturas que lembram pequenas asas e formam uma concha transparente em caracol. "Muitos organismos nos oceanos constroem suas conchas e esqueletos com cálcio, a estrutura mais comum que os organismos no mar fazem", explica Riebesell. "A acidez dos oceanos afeta negativamente esse processo. Eles vão calcificar menos, suas estruturas terão defeitos, ficarão menos protegidos, menos saudáveis, os predadores podem pegá-los com mais facilidade." A maioria dos organismos estudados até agora reagem mal à acidificação, crescem e se reproduzem menos. Ouriços podem ter problemas em formar sua carapaça de espinhos, mariscos fazem conchas com defeitos, a reprodução de moluscos é afetada. Na pesquisa do Epoca no Ártico, os cientistas jogaram CO2 em concentrações diferentes dentro dos nove mesocosmos. Nos primeiros quatro, os valores de dióxido de carbono correspondiam aos dos tempos pré-industriais. No quinto, a adição do gás era equivalente aos níveis atuais de concentração na atmosfera. Nos últimos quatro, os níveis de CO2 eram compatíveis aos dos cenários futuros imaginados pelos cientistas do IPCC, o braço científico das Nações Unidas. Finalmente, uma espécie de tampa transparente em formato de guarda-chuva, ornada com espinhos artificiais, foi colocada sobre cada mesocosmo, para evitar que as aves pousassem sobre eles. A rotina dos pesquisadores passou a ser recolher amostras, adicionar CO2, observar o comportamento das plantas e animais, anotar os dados, mergulhar no mar para ver se estava tudo bem. E começar tudo de novo no outro dia. "Em 33 dias tivemos apenas um livre", conta o professor. Eles também faziam ronda constante para observar as condições do tempo, do mar e a aproximação de icebergs, um dos temores da equipe. "Conseguimos afastá-los usando pequenos botes." No último dia da experiência, quando os pesquisadores já guardavam equipamentos e faziam as malas, Riebesell comentava alguns dados. Clorofila é uma medida importante de biomassa. Os cientistas apanhavam amostras de algas nos diferentes tubos, centrifugavam tudo e conseguiam comparar o que estava acontecendo. No 25º dia da experiência, por exemplo, havia variações claras na produção de clorofila do plâncton exposto a quantidades menores de CO2 do que naquele que ficou vivendo no mesocosmo com altas concentrações do gás. As algas que viveram em águas menos ácidas produziram quase o dobro da do que as outras. "Ficamos muito felizes porque pela primeira vez víamos indicações claras de mudanças", celebrava Riebesell. Para depois, reconhecer: "Mas está claro que, se continuarmos a emitir como estamos e só fizermos algo adiante, será muito tarde para o Ártico. 2050 é tarde demais para o Ártico." Os cientistas mediam mais de 60 parâmetros diferentes, todos os dias. Observaram de sedimentos à interação entre organismos. Duas comunidades diferentes de fitoplâncton não gostaram de viver em águas mais ácidas. "A questão da adaptação à mudança está em aberto", diz Riebesell. "Mas se eu tivesse que fazer um quadro de como o oceano vai parecer em 50 ou 100 anos, diria que terá menos biodiversidade. Vamos perder muitas espécies." O que não está tão claro é se o aumento na acidez vai resultar em menos peixes no mar. "Ainda não temos ideia do que acontece com os peixes, baleias e assim por diante." "Adicionando algo sobre a biodiversidade: não podemos saber o que vai acontecer no futuro, mas podemos olhar para o passado", continua. A acidificação dos oceanos já aconteceu pelo menos duas vezes. Uma delas foi há 55 milhões de anos, quando uma grande quantidade de metano estocado no fundo do mar se liberou, foi para a água e de lá para a atmosfera. O fenômeno aconteceu com muita intensidade. "Ocorreu uma massiva extinção de organismos, principalmente os que tinham cálcio nas estruturas. Perdemos toda a população de corais. A recomposição levou 10 milhões de anos." O segundo caso foi há 65 milhões de anos, quando os dinossauros morreram. A hipótese mais aceita é que um grande meteorito bateu na Terra e liberou grandes quantidades de gases que acidificaram os oceanos - de novo os organismos com cálcio tiveram a mais alta taxa de extinção. "Não digo que estamos caminhando para essa situação", alerta, "mas que isso indica que a acidificação dos oceanos pode resultar nessas mudanças." Em novembro deve estar fechada uma análise global das pesquisas no Ártico. O próximo passo é estudar o que está acontecendo no Pacífico. Um centro de estudos no Havaí coleta dados sobre o assunto há 25 anos. "Queremos juntar a experiência que temos com os mesocosmos com o longo conhecimento de dados deles", diz o cientista. Ele estava feliz no final da experiência no Ártico. "Tivemos muita sorte, deu tudo certo." Não foi sempre assim. Os mesocosmos foram utilizados em outras ocasiões e a experiência não dava certo. Ondas altas e mau tempo colocavam tudo a perder. Mudaram o design das torres e em 2008, no Báltico, finalmente conseguiram que aguentassem o tranco. O projeto no Ártico começou a ser preparado há dois anos. O maior obstáculo virou trazer os pesados mesocosmos para Ny-Ålesund. No Projeto Epoca existe um grupo de usuários de referência em que estão BP e Rolls Royce, WWF, TNC e Greenpeace. Foi aí que alguém do Greenpeace sugeriu que o Esperanza poderia trazer as torres. "Começamos a conversar, nunca tinha feito nada com o Greenpeace", conta o professor. A parceria inédita delimitou espaços: os cientistas ficavam com a ciência, os ativistas com o transporte. "Isso era totalmente novo para nós. Fizemos um memorando, falamos com nossos parceiros no Epoca e com a Comissão Europeia", continua. A novidade foi criticada. "Houve gente dizendo que iríamos perder credibilidade. Tivemos longas conversas, deixamos claro que nós, cientistas, somos totalmente independentes e que o Greenpeace não interferiria em nada", afirma. "A minha experiência, agora, é que o Greenpeace é extremamente profissional. Fiquei muito bem impressionado." Os mesocosmos voltaram a Kiel em 22 de julho, sãos, salvos e prontos para mergulhar nas águas do Havaí. Os oceanos são distintos, mas tudo está relacionado. O que acontece com as algas no mar mais ácido pode afetar os peixes que as comem, os pássaros que comem os peixes, as focas que também comem os peixes, os ursos que comem as focas, os humanos que comem peixes e ostras e mariscos. As queimadas na Amazônia jogam mais CO2 na atmosfera e vão interferir no cardápio da morsa. O que acontece no Ártico, nas terras geladas do sol da meia-noite, vai bater em toda parte - inclusive naquele continente gelado onde vivem os pinguins e não tem urso. Valor Econômico - Daniela Chiaretti - 10/09/2010 |















