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Sísmica na selva
Contratada pela Petrobras por três anos, renováveis por mais dois, a equipe sísmica ES-300 da Georadar completou dois anos fazendo levantamentos 2D na província de Urucu (AM). À frente das operações está o geofísico Luiz Bampa, (ex-Petrobras) que ingressou na Georadar em outubro de 2007. Responsável pela parte operacional que inclui a sísmica, a logística, o gerenciamento de pessoal e a distribuição das equipes pelos diversos projetos, Bampa conversou com a reportagem do Geofísica Brasil sobre os grandes desafios de uma equipe sísmica em uma floresta tropical.
É mais difícil fazer sísmica na Amazônia que em outras regiões?
O grande desafio na floresta é a logística, principalmente abastecimento e transporte. Pegar pessoas em Coari ou Tefé, levar pelo Rio Urucu até a base operacional da equipe leva 30 horas na época da cheia e de 48 a 60 horas na época da vazante. O nível dos rios oscila de 10 a 15 metros entre as estações seca e chuvosa. Isso torna a navegação mais difícil na época seca, quando é mais perigosa a navegação noturna, com risco de pegar um banco de areia ou lama e encalhar o barco. No auge da chuva, por outro lado, descem troncos, touceiras de capim, materiais que podem danificar a hélice do motor e o próprio barco, além de outros problemas, mas se consegue trafegar com maior velocidade e vencer as distâncias num tempo menor.
O primeiro desafio então é colocar o pessoal dentro da floresta?
Isso aí. O pessoal, o equipamento, o abastecimento de comida e combustível vão de barco. O staff – chefe da equipe, observadores, coordenadores de topografia e os geofísicos – seguem em avião da Petrobras de Manaus até a Base de Operações Geólogo Pedro de Moura (BOGPM), em Urucu.
A equipe na selva a equipe tem que ser mais enxuta?
Temos 700 pessoas. Enquanto dois terços trabalham, o restante folga. É um regime de rodízio. Trabalham 40 dias e folgam 20.
Como os equipamentos chegam até os trabalhadores na selva?
Ao longo das linhas sísmicas (cujo comprimento pode chegar a ter 15, 20 ou 30 quilômetros e são definidas pelo contratante), a cada três quilômetros e meio, abrimos uma clareira. Na operação de apoio às clareiras, tudo é transportado de helicóptero, inclusive material sismográfico que vai ser usado na frente.
Qual o tamanho das clareiras?
É um retângulo de aproximadamente 30 x 60 metros, que dividimos em dois. Um quadrado de 30x30 é completamente limpo, retira-se totalmente a vegetação e se constrói uma área o mais nivelado e horizontal possível para o pouso do helicóptero com segurança. Na outra metade, a limpeza não é tão completa. É uma área auxiliar que serve como rampa de pouso e decolagem para o helicóptero, que precisa de espaço para ganhar velocidade e altura para poder sair e superar as árvores.
O que fazem com as árvores cortadas?
Algumas são aproveitadas no próprio acampamento. Parte delas é utilizada na estrutura e nos pisos das barracas. Existem regras. Uma castanheira, por exemplo, jamais pode ser derrubada. Nas regiões com muita castanheira, temos que realocar as clareiras de forma a não atingir nenhuma. As outras árvores podem ser cortadas. O material que se retira é jogado para as laterais da clareira ou para essa parte que não é totalmente limpa.
O IBAMA controla essa atividade?
Sim, eles fazem visitas periódicas. Utilizamos motosserras registradas no IBAMA. O órgão ambiental do estado também já fez visitas à equipe e à Petrobras. Tudo tem que ter licença ambiental. A Petrobras tem licença ambiental para esse tipo de operação. Tudo está bem legalizado. As picadas têm que ser suficientemente limpas para passar uma pessoa carregando a estação total e que permita a visada do equipamento da topografia. O pessoal da clareira vem atrás da turma da picada e abre uma clareira por dia, pelo menos.
Quantas clareiras vocês já abriram?
A clareira da sísmica é considerada pouco agressiva. Embora suprima a vegetação no local, isso representa pouco em relação ao todo. É uma clareira pequena. Outra questão é a seguinte. Imediatamente após a desocupação da clareira, ocorre uma recomposição natural. Acertamos com o órgão ambiental e a recomendação de especialistas em florestas é depois de usar a clareira o melhor é não fazer nada. Não deixamos nenhum contaminante nem produtos químicos. Todo o material utilizado para construção e sobrevivência da equipe é removido. Não fica nada estranho ao meio ambiente. A recuperação da clareira se dá em alguns anos através de uma mata primária que cresce espontaneamente. Com a luz do sol, uma quantidade de sementes que está no solo germina rapidamente. Em alguns anos não se verá mais a clareira. Ela se recupera com recursos próprios. Um reflorestamento seria pouco efetivo. A velocidade com que a mata primária leva para recompor a clareira é tão grande que ela acaba sufocando as árvores que viriam a ser parte de um reflorestamento.
Abrir clareiras é muito arriscado?

Essa é a operação de maior risco na selva. Operadores de motosserra treinados – são quatro em cada turma – todos usam equipamento de proteção individual básico, (luvas, botas, capacete e perneiras com proteção de aço). Além disso, se comunicam o tempo todo com o capataz e o técnico de segurança através de uma espécie de ponto eletrônico. O operador de motosserra trabalha sozinho, mas a comunicação envolvendo situações de risco tem que ser imediata. Há também um técnico de segurança apoiando o operador. É a operação que envolve o maior risco e por isso o pessoal é reciclado por especialistas sistematicamente, mas mesmo assim ocorrem acidentes. .
Vocês estão equipados para dar os primeiros socorros?
Temos médico na equipe e um grupo de técnicos e enfermeiros de segurança do trabalho distribuídos pelo acampamento e junto das frentes de trabalho. Boa parte dos componentes das turmas de campo e da base recebem treinamento em primeiros socorros, são os socorristas.
Existe uma técnica utilizada em vários países chamada long line com alpinismo, que dispensa a abertura de clareiras. Você acha essa técnica menos segura que o uso do helicóptero?
Conheço. O helicóptero desce o equipamento pendurado por um cabo. É uma técnica interessante, utilizada em alguns países da África. Mas ela também traz riscos. O helicóptero da equipe sísmica tem mais pousos e decolagens do qualquer um que atue em Macaé ou no eixo Rio-São Paulo. Em cada clareira ele tem que subir e descer equipamentos e materiais. Esse número de pousos e decolagens é alto porque é muito equipamento. Long line é uma técnica usada em florestas menos densas, com árvores de menor porte. Imagine descer uma rede com material sismográfico, com explosivo, com o acampamento, a cada três quilômetros na floresta. Só o fato de aquele cabo descer e entrar na mata e depois ser trazido de volta para o helicóptero, baixando ou levantando o material pelo cabo, é um risco muito alto. Muitos helicópteros já caíram porque o cabo enroscou no galho de uma árvore. O helicóptero às vezes fica preso até que alguém consiga soltar o cabo e içar o material. Tem o vento e outros fatores que interferem. Quando se está na cidade, o helicóptero fica estável. Mas na selva a coisa é diferente. Alem disso obrigaria o pessoal a ser transferido a sempre a pé se não existissem as clareiras. Uma mudança de linha sísmica, que demande uma travessia de rio, se não tiver uma clareira, cria uma dificuldade adicional para a equipe.
Quantos helicópteros vocês utilizam? De que tipo?
São três helicópteros. Os pilotos ficam alojados no acampamento base da equipe. São helicópteros biturbina, fabricados na Alemanha, modelo BO, operando simultaneamente. Enquanto um apoia a sismografia, os outros fazem as operações paralelas, como mudança de linha sísmica, deslocamento de material e pessoal. Tem que ser de helicóptero porque não existe outra ligação entre aqueles pontos. Tem havido contatos com onças ou outros animais silvestres? Sim. O pessoal vê pegadas e percebe a presença, sente o cheiro, mas nunca houve um ataque ou mesmo a aparição de onças. Elas se afastam porque temem pessoas em grupo. O procedimento certo é nunca uma pessoa se deslocar sozinha ao longo das picadas. Em cada clareira dormem de 40 a 50 pessoas.
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