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Um novo "Rio Amazonas"

Em entrevista ao Jornal do Meio Ambiente, a pesquisadora que descobriu o Rio Hamza – aquele que corre debaixo do Rio Amazonas a 4 mil metros de profundidade –, Elizabeth Tavares Pimentel, propõe projeto para mapear o fluxo subterrâneo de toda a região. Segundo ela, o "rio" adentra no Acre e atravessa toda a calha amazônica numa extensão de seis mil quilômetros.

Folha do Meio - Qual foi o sabor dessa descoberta e o que ela representa?

Elizabeth - Foi um sabor de vitória, mas foi algo bem simples em termos de descoberta, pois para mim parecia muito óbvio cientificamente. A importância da pesquisa foi conhecida, durante 12º Congresso Internacional da Sociedade Brasileira em Geofísica, no Rio de Janeiro, realizado em agosto. Na Universidade de Manaus dizem que é a descoberta de maior repercussão em 100 anos de existência da UFAM. O povo de Parintins também está muito orgulhoso da descoberta.

Como o Brasil pode melhorar a gestão das águas do rio Hamza e do Aquífero Alter do Chão?

Elizabeth - Já existem órgãos competentes que gerenciam os recursos hídricos brasileiros, tanto superficiais como subsuperficiais de maneira responsável e sustentável. O objeto destas descobertas deve ser tratado como patrimônio nacional. Por isso, devemos ter todas as informações, pesquisas e estudos para preservar melhor.

FMA - Qual é o papel da ANA e dos estados nessa gestão?

Se futuramente houver necessidade de utilização dessa água, certamente a Agência Nacional de Águas e os estados terão compromisso de regular o acesso, promovendo o seu uso sustentável em benefício das futuras gerações.

Quando acontece seca na Região, afeta o volume de água no rio subterrâneo e no Aquífero Alter do Chão?

A quantidade de água existente no planeta, em particular na Região Amazônica, faz parte de um sistema que está em equilíbrio. Em período de seca a parte que está na superfície está na forma líquida, condensada ou vapor. Em subsuperfície, na profundidade de aproximadamente 4 mil metros, o fluxo de águas não sofre influência das mudanças climáticas. O aquífero Alter do Chão é relativamente mais vulnerável ás mudanças nas taxas de precipitação do que camadas com fluxo subterrâneo em maiores profundidades.

As perfurações futuras na região à procura de petróleo ou de gás, podem contaminar ou comprometer a qualidade da água do rio Hamza ou do Aquífero?

Existem casos de contaminação de aqüíferos rasos por ações antrópicas na região Amazônica. Influência das atividades de perfuração terão impactos apenas em escalas locais. No entanto, o fluxo subterrâneo mais profundo está atualmente menos vulnerável a essas ações, devido às dificuldades de acesso.

Quais as próximas etapas da pesquisa de campo do rio Hamza?

Estamos prevendo atividades em parceria com todas universidades da Amazônia. Ainda estamos propondo um projeto específico com enfoque para o mapeamento do fluxo subterrâneo desta região. As pesquisas que fazem parte do projeto de doutorado incluem medidas complementares de temperaturas em poços e determinações de propriedades térmicas das formações geológicas da região Amazônica.


FMA - O que são gradientes geotérmicos e porque foram importantes para descoberta do rio Hamza?

Elizabeth - No interior da terra as temperaturas aumentam com a profundidade, pois ocorre fluxo de calor vindo do interior do nosso planeta. As taxas de variações da temperatura com a profundidade são designadas como gradientes geotérmicos. Quando se analisa o campo térmico em profundidade, é possível observar anomalias que indicam a existência de movimentação de água, petróleo e gás. O método geotérmico é bastante sensível, capaz de determinar e quantificar parâmetros físicos, tais como a velocidade de fluidos, com ordem de grandezas inferior á valores de metros/ano. Não se conhece equipamentos que possam realizar tais medidas.

Como nasceu o seu interesse por física e depois por geotermia?

Iniciei os meus estudos com curso de graduação em física em Parintins. Na época, era o que mais se aproximava de minhas aptidões. O curso foi concluído em Manaus-Am, na UFAM. Depois, resolvi fazer alguma aplicação prática dos conhecimentos adquiridos com o curso de Física. Não havia cursos de Física Aplicada em minha universidade, por isso fiz o mestrado em Geociências onde havia a linha de pesquisa em Geofísica. Depois disso entrei para o doutorado em Geofísica na mesma linha de mestrado que é a Geotermia. Minha família toda é cristã, alguns evangélicos e outros católicos, e foi nesse ambiente que cresci, então sempre digo que tudo o que aconteceu em minha vida foi permitido por Deus.

Quais são principais objetivos em pesquisar recursos geotermais?

Os principais objetivos são determinação de recursos de energia geotérmica da Região Amazônica para o desenvolvimento de projetos de aproveitamento do calor do subsolo; estimar o fluxo de águas subterrâneas em subsuperfície e determinar as magnitudes e idades das mudanças climáticas dos últimos séculos.

Como a senhora conheceu o dr. Hamza?

Foi em 2009, num congresso em Salvador, Bahia. Eu estava apresentando o meu trabalho de mestrado, feito na Universidade Federal do Amazonas-UFAM, em Geologia Ambiental com ênfase em geotermia.Neste encontro, o doutor Hamza quis conhecer o minha pesquisa. Pretendia fazer doutorado em geofísica/geotermia, pois sou graduada em física pela UFAM. Como na minha universidade não havia essa especialização, então, perguntei ao dr. Hamza se aceitava ser o meu orientador. Ele atendeu prontamente o meu pedido. Passei para o doutorado em 2010 e ganhei uma bolsa para fazer minha pesquisa, aqui no Observatório Nacional.

Por que geotermia?

Geotermia analisa as variações de temperatura de tudo que tiver da superfície da terra para abaixo. Essas análises permitem identificar e detectar a maturação de hidrocarbonetos (petróleo), gás, minérios e água. Assim, identificamos o movimento da água. O doutor Hamza é um dos maiores especialistas em geotermia e mudanças climáticas. Atualmente, já aposentado, trabalha todos os dias sem ganhar nada a mais, para continuar orientando seus alunos.

Por que essa homenagem ao cientista Valiya Hamza, dando nome ao rio?

Só quem conhece a dedicação e a capacidade, além da paixão pela ciência e o amor ao Brasil desse indiano, pode entender o porquê dessa homenagem.

Folha do Meio Ambiente - 20/10/2011 - Zilda Ferreira
 

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