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mineraçao | urânio | usina nuclear

Rumo do Programa Nuclear é incerto

Ainda é desconhecida a ênfase que o governo Dilma Rousseff dará ao Programa Nuclear Brasileiro. À frente da Casa Civil no governo Lula, a então ministra não deu prioridade a essa agenda, em meio aos preparativos para o lançamento da candidatura ao Planalto.

A última reunião de ministros sobre o programa nuclear aconteceu em agosto de 2008. Nessa ocasião, ficou acertado que o País teria mais quatro usinas nucleares até 2030, duas no Nordeste e duas no Sudeste.

Uma nova reunião precisa ocorrer para definir o local exato dessas usinas, assim como a localização de um depósito de rejeitos de alta radioatividade, exigência feita pela área ambiental para liberar o início do funcionamento da usina de Angra 3.

Na mensagem que encaminhou ao Congresso na quarta-feira passada, a presidente reafirma o compromisso com a autossuficiência na produção de urânio enriquecido, prevista para ocorrer até 2014. "Fica confirmada a posição do Brasil no seleto e pequeno grupo de países com tecnologia de enriquecimento de urânio", diz a mensagem, que não menciona a possibilidade de exportação de excedentes do combustível nuclear.

País tem uma das maiores reservas do planeta

Produção de "excedentes exportáveis" será possível a partir de meados da década, segundo projeção da INB

Retomado durante o governo Lula, com a decisão de terminar a construção da usina nuclear de Angra 3, suspensa nos anos 80, o Programa Nuclear Brasileiro passou a trabalhar com a possibilidade de exportação de urânio enriquecido há alguns anos, de forma discreta.

A produção de "excedentes exportáveis" será possível a partir de meados da década, segundo projeções feitas pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB), estatal que exerce o monopólio sobre o setor. Esses "excedentes" seriam decorrência de investimentos já previstos em novas fábricas de conversão do concentrado de urânio (yellow cake) em gás e de enriquecimento do urânio - etapas ainda feitas no exterior.

Com quase 310 mil toneladas de urânio já identificadas e outras 500 mil toneladas presumidas, o Brasil é dono de uma das maiores reservas do minério no mundo. Em 2014, de acordo com a estatal do setor, o país deverá entrar num clube ainda mais restrito, dos países que produzem combustível nuclear em escala industrial e com tecnologia própria, desenvolvida pela Marinha.

Dificuldades. As reservas brasileiras de urânio sejam comparáveis a uma fatia significativa do potencial energético do petróleo do pré-sal, mas a extração do minério vem enfrentando problemas.

A única mina em atividade hoje, localizada em Caetité (BA), teve a ampliação da lavra adiada por falta de licença ambiental e do órgão que fiscaliza o setor nuclear. Problemas de licenciamento também atrasam o início da exploração da mina de Santa Quitéria (CE), empreendimento que lançou a primeira parceria

Exportar urânio exige investimento de R$ 10 bilhões

Esse seria o custo para a produção do combustível nuclear em escala industrial; itens mais caros são as ultracentrífugas

A transformação do Brasil em exportador de urânio exigirá investimentos de R$ 10 bilhões, quase um ano de pagamento do programa Bolsa Família, calcula o estudo, num primeiro exercício sobre o tema. Esse seria o custo aproximado para o domínio do ciclo de produção do combustível nuclear em escala industrial. O item mais caro são as ultracentrífugas usadas no enriquecimento do urânio, produzidas pela Marinha.

Atualmente, para abastecer as usinas de Angra 1 e 2, o país recorre a serviços da França e de um consórcio europeu para duas etapas do processo: a conversão do concentrado de urânio em gás e o enriquecimento. O abastecimento do mercado interno não justificaria a construção de novas fábricas no país para essas etapas, alega o estudo, mesmo com anunciada intenção do governo de construir mais quatro usinas nucleares até 2030.

Contatos

Na viagem feita entre 13 de novembro e 5 de dezembro do ano passado à França, à China e à Coreia, para sondar o interesse de importadores de urânio enriquecido, os sinais mais promissores foram colhidos na França, relata o secretário-executivo da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Luiz Alfredo Salomão, em relatório de viagem.

"Mme. Lauvergeon reagiu com entusiasmo, dizendo que havia proposto à então ministra Dilma investimento da Areva na pesquisa de minério de urânio, na sua lavra e beneficiamento para exportação", relata Salomão, sobre o encontro com a presidente da multinacional Areva, a maior produtora de urânio enriquecido do mundo. Lauvergeon teria considerado "perfeitamente possível" uma parceria para a conversão e o enriquecimento do urânio, mas sugeriu que o país deve se apressar para aproveitar uma "janela de oportunidade" nesse mercado.

Com os chineses e os coreanos, a conversa inicial foi mais dura. O diretor-geral do Departamento de Energia Elétrica da China, Xu Yong Sheng, mostrou interesse em comprar urânio natural para ser enriquecido lá. "Mostrei a ele que não seria sustentável a longo prazo o Brasil apenas vender commodities básicas para a China, que era indispensável que a China nos comprasse produtos de alto valor agregado, se quisesse manter um cliente a longo prazo", relatou Salomão. Os contatos foram acompanhados pelo Itamaraty.

A China constrói 30 novas usinas nucleares, mais da metade das 55 usinas em construção no mundo. Outras 468 usinas estariam em fase de planejamento, fato que sustenta o cenário mais otimista de crescimento do mercado de combustível nuclear, embalado por restrições impostas pelo aquecimento global a fontes de energia que emitem mais gases de efeito estufa.

O Estado de S. Paulo - Marta Salomon - 07/02/2011

 

 

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